Como era muito cedo ainda, ninguém tinha vindo buscar as azeitonas caídas. As rajadas de vento vinham, balançavam as oliveiras e mais e mais azeitonas caiam. Os pássaros que gralham brincavam entre os galhos, voavam rasante entre os troncos e as estátuas e pousavam entre as azeitonas caídas. O sol, de longe, no horizonte, rasgava as folhagens com seus raios luminosos e fazia evaporar o orvalho com seu calor. Era como um banho matinal e as azeitonas deliciavam-se com aqueles novos momentos em suas breves existências.
E por mais breve que possa ser a vida de uma azeitona, nada a torna menos nobre do que qualquer outra vida, ainda mais porque, desde a mais remota antiguidade, as oliveiras acompanham a evolução da presença dos seres humanos na Terra.
Com toda a responsabilidade de quem tem muitos antepassados, a azeitona preta comentou:
- Veja o monumento da Eulália a juíza, o que você acha dela?
- Eulália? - Perguntou assustada a azeitona verde - A louca?
- Louca? Nem um pouco! - Respondeu a azeitona preta nervosa - De louca ela não tem nada, muito pelo contrário. Foi uma mulher de muita visão, isto sim! Como a princesa vesga da redação que ela escreveu!
A azeitona verde não entendeu:
- Mas ela não gostava de azeitona! Isso lá é normal? Qual seria nosso destino, nossa função social, nossa razão de existir, se as pessoas não gostassem de azeitona?
- Bem - Contemporizou a azeitona preta - Devagar aí... Se as pessoas não gostassem de azeitona, não sei o que seria de nós, mas pelo que sei, a Eulália e mais meia dúzia de pessoas não comem ou não comiam azeitonas... Qual o problema? O resto do mundo nos adora!
Função social? O que sabia aquela azeitona verde sobre função social, pensou a azeitona preta. Lembrava-se de histórias que ela não sabia se eram lendas ou escrituras sagradas, mas que seus pais e avós contavam ainda quando ela era uma bolinha verde bem pequena que quase não se via. Contavam que os antigos gregos untavam seus heróis e atletas em azeite e que colocavam ramos de oliveira como se fossem coroas nos mais bravos guerreiros. Contavam que um tal Homero escreveu um livro sobre as proezas de seu povo chamado Odisséia e nele chamava o azeite de oliva de "ouro líquido", e também que Rômulo e Remo, que se alimentaram do leite de uma loba viram pela primeira vez a luz do dia na cidade de Roma, a qual fundaram, do alto de uma oliveira. Mesmo assim, e mesmo tendo ouvido tantos outros relatos sobre a valorização das oliveiras pelos seres humanos, a azeitona Preta não tinha nenhum tipo de mágoa com relação à Eulália.
- Talvez ela só não gostasse de azeitonas pretas - Alfinetou a azeitona verde, com um ar de superioridade.
A azeitona preta fingiu ser o velho surdo e sem nariz e ficou quieta por muito tempo. Pior do que o preconceito contra a Eulália a juíza, era o preconceito contra as azeitonas pretas. Mas nesses momentos, a azeitona preta respirava fundo, com toda sua maturidade de quem já foi verde um dia e contava até 10... Ou mais.
Muitas azeitonas passeadeiras passaram rolando carregadas pelo vento, descendo a rua dando risada e saltitando. A azeitona preta olhou ainda quieta e sorriu contemplando a leveza das azeitonas passeadeiras. O sol começava a esquentar o chão. Aquelas memórias todas e o comentário infeliz da azeitona verde a deixaram um pouco cansada. Fechou os olhos, cochilou e sonhou...