
Então começa aqui essa história. E é mesmo uma história e não estória, pois os fatos narrados aconteceram mesmo, e muitas testemunhas viram... E sentiram.
Para dizer a verdade, era um tempo de muito frio, daqueles frios de inverno, que vêm logo depois de um outono cheio de frutas que vem logo após um verão de muito sol e muita praia. Um frio intenso com todos esperando que a primavera chegue com suas flores de mil pétalas e aromas. E do outono que findara, lindas azeitonas caíram das oliveiras da praça central.
Sempre que se passa pela praça central, duas coisas chamam muito a atenção: uma delas são os pássaros que gralham a cada meia hora acompanhando o badalar dos sinos da matriz e a outra, as azeitonas que recobrem o chão nesta época do ano.
No último senso botânico e zoológico, o próprio prefeito contou 12 espécies diferentes de pássaros que gralham e 8 tipos de oliveiras só na praça central. Em dias mais quentes, diz-se na cidade que mais de 40000 pássaros que gralham vêm habitar a praça, e que, quando voam em revoadas, chega-se a pensar que a noite veio mais cedo ou que um grande zeppelin veio visitar os moradores. As gralhas costumam ter as penas bem pretas e brilhantes, mas muitos conseguem ver gralhas azuis escuras, verde-oliva, vermelhas e até brancas. Isto não sei se é verdade, mas foi o que me garantiu um velho senhor de 108 anos que sempre viveu na casa de número três, bem ao lado da praça.
Ele contou também, que quando tinha 7 anos, viu quando os homens da fábrica de azeite quiseram acabar com elas, ateando fogo a uma das oliveiras. O velho senhor, que tinha 7 anos, e todas as outras crianças da praça correram com baldes, panelas, copos cheios de água e fizeram de tudo para apagar o fogo. A tragédia foi muito grande: uma menina de vestido branco e um menino de camisa vermelha lutaram contra o fogo na oliveira mais antiga, com 1300 anos, que ardia no centro da praça. Foram vistos pequenos pássaros que gralham caindo dos ninhos intoxicados pela fumaça. A menina e o menino sopravam ar para que os pequenos pássaros pudessem se recuperar e muitos deles de fato conseguiram voar para longe com estes "sopros de vida".
Finalmente o fogo foi controlado. Contou-se a morte de 8 árvores que na cidade já estavam antes que as ruas tivessem chegado, 183 pássaros que gralham e de duas crianças: uma menina de vestido branco e um menino de camisa vermelha.
Desde então, diz-se que as gralhas brancas são as que receberam o sopro de vida da menina de vestido branco e as vermelhas receberam o sopro de vida do menino de camisa vermelha.
Os habitantes tentam todos os dias contar os pássaros vermelhos e brancos, mas eles voam rápido e alto, sempre com medo que alguém tente botar fogo nas árvores.
Os donos da fábrica fugiram, e soube-se depois que de tanto arrependimento, nunca mais conseguiram falar com ninguém e foram morar isolados no alto da colina dos desvairados até o fim de suas vidas.
A fábrica continua, mas os novos donos plantaram muitas outras oliveiras e não se importam se pássaros vêm comer seus frutos.