terça-feira, 10 de janeiro de 2012

II - A homenagem

Um conhecido ornitólogo, daqueles que estudam os pássaros e por isso mesmo têm este nome, pesquisou durante 3 anos e meio os hábitos das gralhas da praça central, e descobriu, após análises estatísticas refinadas, que as belas aves não comiam as azeitonas - e não comem ainda - porque elas não gostam do sabor e principalmente porque acham o caroço muito grande.
As aves que gralham preferem, ao invés disso, bicar o cabinho que prende a azeitona ao galho. Elas adoram o sabor da seiva desta pequena haste. Com isto, os frutos caem e, muitas vezes ficam machucados ao baterem no solo. Só às vezes, e isto quando estão muito maduros, porque são tão pequenos e leves que quase sempre caem intactos no chão.
O ornitólogo, a comunidade científica, o prefeito e muitos moradores se perguntaram então, porque os donos da fábrica quiseram acabar com as gralhas. Afinal, elas não comiam as deliciosas azeitonas e ainda gostavam de comer os insetos que botavam seus ovos nas oliveiras e cujas larvas se desenvolviam alimentando-se das suculentas azeitonas.
Nunca ninguém teve coragem de ir até a colina dos desvairados perguntar aos malvados homens porque eles fizeram tal barbaridade. O mistério permaneceu na cidade assim como o medo de que alguém mais tentasse maltratar os pássaros e as oliveiras.
Logo em seguida os homens que legislam fizeram uma lei e toda a população aplaudiu: "As oliveiras e as aves que gralham devem ser respeitadas, cuidadas e preservadas e todos devem amá-las porque a todos elas trazem vida. Ao contrário, a destruição das oliveiras e das aves que gralham trazem a morte." Este era o parágrafo 1, e logo em seguida vinha um complemento: "Os outros tipos de árvores e de animais também devem ser respeitados, cuidados e preservados, a menos que se diga o contrário, mas para isto muitos cientistas deverão ser consultados antes."
O prefeito leu a nova lei e inaugurou uma placa de metal bem polido onde as palavras da lei podiam ser lidas. A placa foi colocada bem no meio da praça central, ao lado de uma escultura do menino de camisa vermelha e da menina de vestido branco que foi inaugurada junto. Ele plantou também uma muda de oliveira no canteiro onde antes viveu a oliveira de 1300 anos. Foi comovente ver todos reunidos. Cada um com seus próprios pensamentos e com suas próprias lembranças. Na noite que se seguiu, choveu docemente e as folhas das oliveiras foram lavadas para que acordassem ainda mais brilhantes. A estátua das crianças foi, desde então, muito admirada por todos que passavam pela praça, e como ela foi feita, assim como a placa, de um metal brilhante, as mulheres acharam por bem, confeccionar roupas - um vestido branco e uma camisa vermelha - e colocarem nas estátuas. Fizeram inclusive, várias mudas de roupas e todos os dias pela manhã, as crianças esculpidas acordam com roupas limpas, passadas e cheirosas. Nunca se soube de um dia em que um pássaro que gralha tivesse feito titica nas estátuas, mas é comum de se ver as aves saltitando e ciscando ao redor das estátuas.