quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

III - O encontro

Tudo isso que foi dito até agora, não deixa de ser importante. Afinal, quem decide se uma coisa é importante ou não, é quem vive a coisa. Mas se você fosse uma azeitona, talvez as estátuas no centro da praça, as aves que gralham bicando seus cabinhos, os donos da fábrica e o prefeito, tivessem uma importância diferente.
O mundo das azeitonas é, com certeza, o mesmo que o nosso, o dos pássaros, das serpentes e das minhocas, só que a forma como as azeitonas o veem, é bem diferente.
E também nós, não somos capazes de perceber muito bem, como se forma uma família de azeitonas, com pai, mãe, irmãos e primos. O importante neste caso, é que as famílias existem e são muito parecidas com as nossas famílias. E isto é verdade, porque meu avô contou ao meu pai e ele me contou, e certamente o pai do meu avô contou a ele e assim por diante, até que o "big bang" aconteceu.
Naquele dia frio então, bem do começo da história, em que milhares de azeitonas haviam sido libertadas de seus cabinhos, muitas delas pelas bicadas dos pássaros que gralham, muitas outras simplesmente porque chegara a hora de descer, se encontraram duas belas e luzentes azeitonas. Uma azeitona verde, e outra azeitona preta (ou roxa bem escura se você quiser). Como não havia um nome para elas registrado no cartório, elas eram chamadas respectivamente de azeitona verde e azeitona preta.
Meio zonza pela queda, a azeitona verde olha profundamente para a azeitona preta, procurando puxar papo ou mesmo ver se a azeitona preta era amigável. E para seu espanto, a azeitona preta é que resolve falar com ela primeiro:
- Que queda, hein?
- Nem me fale... sabia que isto iria acontecer cedo ou tarde, mas pelo amor de Deus, quando vi aquele pássaro que gralha a bicar sem parar o cabinho que sempre me prendeu à oliveira, pensei cá comigo: ele vai me acertar, ele vai me acertar. Era um bico comprido e que ponta tinha aquele bico. Rapaz! Sempre quis me libertar da oliveira, para ter, tipo assim, uma vida independente mesmo... Estou amadurecendo e coisa e tal, mas rapaz! Cheguei a ficar com muito medo mesmo! Respondeu a azeitona verde.
Seguiu-se um longo silêncio, daqueles em que as idéias ficam reverberando na cabeça, as imagens se formam e se esvaem, até que finalmente a azeitona preta se pronunciou:
- Você fala, hein?
Claro que depois disso, a azeitona verde sentiu-se meio mal, como se tivesse sofrido uma segunda queda. Mas não dá para querer comparar uma azeitona preta com uma azeitona verde. Elas são bem diferentes! A azeitona preta é madura, é vivida, sabe mais coisas sobre o nosso mundo. Por ser mais madura, ela acaba sendo mais mole na consistência, não que ela seja preguiçosa, isso não, mas por ser mais macia, a queda acaba sendo melhor amortecida, então ela não tem tanto temor assim ao cair. A azeitona verde, ao contrário, é meio ingênua e só se acha madura, mas na verdade ela não quer ficar madura nunca, senão ela acaba ficando preta.
Espere um pouco! Vai me dizer que você achava que existia uma oliveira que desse frutos verdes e outra que desse frutos pretos? Não, nada disso: há muitos tipos de oliveiras, com frutos maiores, menores, mais amargos, mais azedos, mais carnudos e mais caroçudos, mas quanto à cor, não se iluda, todos os frutos nascem verdinhos e crescem verdinhos e só ficam pretos - ta bom, pretinhos - quando amadurecem. Oh! Mesmo? Sim!
Enquanto expliquei isto, as azeitonas retomaram o diálogo, com uma justificativa da azeitona verde:
- Se você fosse verde e caísse quicando pelo chão, entenderia perfeitamente minha ansiedade e nervosismo. Mas não quero te incomodar não...
Um novo silêncio seguiu-se, com suspiros de ambos os lados até que a azeitona preta disse:
- Incômodo algum. Gosto muito de conversar com azeitonas verdes.
Desta vez seguiu-se um silêncio, mas foi um ótimo silêncio, daqueles que escondem um sorriso meio de lado, de reconciliação, de alívio mesmo.
Houve uma movimentação de azeitonas pelo chão, uma ventarada danada, era azeitona rolando pela frente, pelo lado, uma barulheira mesmo. Durante a noite, os moradores da cidade estenderam grandes lonas pelo chão para que as azeitonas caíssem mais confortavelmente. Este costume já existia desde muito antes da lei de respeito às oliveiras, porque todos - ou quase todos - adoravam comer os frutos que caiam.
A azeitona verde parou de rolar e, mais uma vez zonza, olhou para os lados procurando sua nova amiga. Surpreendeu-se quando percebeu que ela continuava ali bem do lado dela.
- Que bom que você continua por aí! Confortou-se a azeitona verde.
- Ainda estamos aqui - confirmou a azeitona preta - não sabemos por quanto tempo, mas estamos todas aqui...