segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

IV - A menina que não comia azeitonas


Enquanto todos na cidade adoravam comer azeitonas e todos os produtos derivados da azeitona, Eulália, a juíza, recusava-se a comer qualquer coisa que tivesse azeitona ou azeite. Nas festividades, quando todos compunham receitas para valorizar a fruta, Eulália punha-se de lado, dava de ombros e ficava a contar os pássaros nos galhos.
Quando pequena, algumas crianças na escola e nas brincadeiras de rua ficavam fazendo piada e chegavam a isolar um pouco a Eulália. Muitas mães e pais aconselhavam os filhos a manterem uma certa distância da estranha criança.
Tamanha era a estranheza que, o prefeito, desacorçoado, convocou a câmara e conseguiu aprovar um tratamento no melhor psicólogo de toda aquela região. E não foi pouco dinheiro, nem poucas horas de muita conversa, estudos, testes em laboratório, artigos em periódicos, discussões com professores e colegas em hospitais e clínicas renomadas. Eulália não colaborava: nada havia de errado em seu organismo e sua cabeça; fora esta anomalia, parecia perfeita. Ela tinha até as melhores notas da escola em história, matemática e educação física, coisas tão distintas quanto as cores das azeitonas. Até novena foi feita, até o padre fez missa e, dizem, até os homens das seitas da escuridão foram consultados. Definitivamente não era mau olhado, nem macumba, nem coisa do capeta do coisa ruim. Enquanto isso a pobre mãe de Eulália desesperava-se:
- Eulália, minha filha! Prove uma azeitona, por favor!
- Já provei mãe. Não se lembra? Devia ter uns três anos ainda... Respondia Eulália contrariada.
- Então tenta mais uma vez... Faz isso para a mamãe - insistia a mãe desiludida.
- É amarga mãe, é azeda e me faz cócegas na garganta - dizia Eulália com firmeza.
- O povo tá falando filha... Não é certo filha - apelava a mãe.
E a discussão continuava por vários minutos, horas e dias, e mãe e filha não chegavam a um acordo.
Eu não quero dar palpite neste assunto: sempre gostei muito de azeitona, e para mim isto é natural, mas conheci, fora daquela cidade, muitas pessoas que não gostavam e não gostam, e têm o hábito de tirar a azeitona dos pratos mais deliciosos e muitas vezes jogar fora. Isso me dá um pouco de pena, mas até aí, achar que não é normal... Isso não.
Na redação de final de ano, naquele ano, Eulália escreveu a mais bela fábula já vista na escola municipal da praça central. Na fábula, uma princesa vesga era perseguida pelo povo incentivado por um vilão que dominava a mente com um elixir aromático. Todos sentiam-se compelidos a achar que a princesa não enxergava nada e jamais entenderia os anseios de seu povo. Liderados pelo vilão, os homens mais fortes do reino entraram no castelo e dominaram a guarda pessoal do rei - e os guarda também concordavam com o vilão - e correram atrás da princesa. Felizmente, a princesa vesga conseguiu escapar, tropeçando aqui e alí, caindo algumas vezes e, no final, refugiando-se na casa do velho surdo sem nariz no meio da floresta. O velho surdo sem nariz vivia sozinho desde há muito tempo, e nem sabia que a princesa vesga era a princesa. Para ele, pouco importava. A princesa gritava que queria se matar e que ia se jogar do penhasco, mas o velho surdo que nada ouvia ou cheirava oferecia alguns biscoitos murchos e um cobertor em frente à lareira. Como o velho não era bobo, ele não ouvia mas percebia que a princesa vesga queria se matar, e tudo fazia para não deixá-la só.
Conforme o coração da princesa foi se acalmando, ela foi conseguindo ver o que se passava: para o velho surdo sem nariz pouco importava se ela era vesga, assim como para ela, o velho era o herói que a tinha refugiado. Com o tempo, a princesa vesga começou a tocar harpa para os ouvidos surdos do velho e a cozinhar bolos condimentados cujo cheiro o velho não sentia. Mas ele adorava quando ela fazia os bolos e tocava as melodias.
Anos se passaram e o reino, dominado pelo vilão, foi se transformando em uma triste paisagem com doenças e sofrimento. O povo esfomeado veio destruindo a floresta, roubando as plantações e matando os animais. Até que um dia chegou um grupo todo maltrapilho na casa do velho surdo sem nariz. Uma das mulheres do grupo identificou a princesa vesga e contou tudo o que estava acontecendo. O grupo que ali chegara havia percebido que a princesa vesga era na verdade quem tinha a melhor visão.
Na verdade, muitos tentaram chegar até o vilão, mas o elixir era muito forte e a mente, ao contrário, ficava muito fraca.
Não é preciso muito para perceber o que aconteceu: a princesa conseguiu convencer o velho surdo e sem nariz a ir junto com ela até o castelo. Fingiram-se de servos até chegarem no portão principal, e desse ponto em diante, o velho surdo e sem nariz seguiu sozinho para encontrar-se com o homem vil. O tolo do vilão, temendo tratar-se de um golpe, espalhou seu elixir no nariz do velho, mas, como ele não tinha nariz, pouco importava. O vilão mandou então tocar os tambores e os sinos para enlouquecer o velho, e este, nem ligou, posto que era surdo. O velho surdo e sem nariz ofereceu então um bolo feito pela princesa. Era um bolo temperado, delicioso, cheiroso e vistoso. Convencido de que o velho surdo e sem nariz era mais um de seus vassalos, o vilão aceitou e comeu todo o bolo. E bolo não faz mal para a saúde, mas, na quantidade que ele comeu, foi suficiente para que ele dormisse profundamente.
Assim, levaram o vilão dorminhoco para o pântano do esquecimento e lá ele passou o resto de seus tempos. O reino foi reconstruído e a princesa vesga foi aclamada rainha vesga e a todos deixou felizes, pois sua visão não dependia de sua vesguice.
Esta foi mais ou menos a redação de Eulália a juíza. Mais ou menos, porque ela realmente caprichou muito mais, rebuscou no português, achou sinônimos e adjetivos apropriados. E quando, no final do ano, o prefeito foi entregar o prêmio de melhor redação, espantou-se ao ver quem era a vencedora. Relutou até, por alguns instantes, mas, emocionado, a premiou, e acrescentou:
- Sua virtude, Eulália, é ser diferente, e ainda assim, ser tão humana.
Eulália ficou famosa, virou juíza, e ajudou muitos a verem os bons caminhos, e nunca mais ninguém reclamou ou achou estranho que ela não comesse azeitonas. No ano em que Eulália morreu, foi inaugurada, ao lado das estátuas das crianças, um monumento em sua homenagem, com a inscrição "Somos diferentes mas vivemos todos sob as oliveiras".